Foi na manhã de ontem oficializada a renovação do vínculo que liga o técnico Jorge Jesus ao Benfica por mais duas temporadas. Depois de nos últimos dias discernir acerca deste tema que muita tinta fez correr, eis que dedico umas linhas, agora que tudo está decidido, relativamente a isto…
A época do Benfica em termos de futebol foi um fracasso. Pelo menos, aos meus olhos. Não me revejo minimamente nas palavras dos que dizem que foi uma época brilhante apesar de termos claudicado (e de que maneira!) na reta decisiva. Trazendo “à baila” um velho chavão ao qual recorro várias vezes e que creio que espelha bem o que são, aos meus olhos, as ambições do Benfica em todas as frentes, passo a citar: “Vitória é ganhar”. Vitórias morais resumem-se apenas e só a isso mesmo. Morais. A roçar a insignificância, pois o Benfica, além de viver da paixão dos adeptos, vive igualmente de títulos. A história e a divida que para com ela tem a isso obriga.
Reconhecendo que Jorge Jesus não é o único culpado de toda esta situação (evidentemente, diga-se), atribuo-lhe a maior quota da parte da responsabilidade. Porém, também lhe reconheço mérito em alguns campos. Afinal, colocou o Benfica a jogar o melhor futebol dos últimos anos. Potenciou vários jovens e valorizou activos, trabalho que se traduziu em vendas por valores consideráveis que o Sport Lisboa e Benfica realizou. Este ano, viu-se obrigado a inventar depois de lhe “venderem o meio-campo” no último dia do mercado de transferências. Com a sublime temporada 2009/10, reaproximou os adeptos do clube, ressuscitou a paixão que em muitos se perdia a pouco e pouco. A época de estreia foi fantástica. O Benfica foi forte do princípio ao fim, e a equipa entrava com uma segurança em campo que lhe permitia contrariar todas as adversidades que lhe eram impostas com extraordinária facilidade.
Não obstante, seguiram-se três épocas desastrosas, com falhanços a toda a linha. Dessas três temporadas, em termos de títulos, arrecadámos duas Taças da Liga. O que é curto. Extremamente curto, para um clube com a dimensão do Benfica.
2010/11 – Terminámos 21 pontos atrás do campeão. Fomos goleados no estádio do nosso principal rival por 5-0, deixámo-lo fazer a festa do título em nossa casa, perdemos a eliminatória das meias-finais da Taça de Portugal em casa (3-1) depois de termos ganho por 0-2 no Dragão. Eliminação da Liga dos Campeões extremamente precoce, sem sequer conseguir ganhar um mísero ponto fora de portas na fase de grupos. Uma das derrotas fora por 3-0, no reduto do… Hapoel Telavive. Caímos nas meias-finais da Liga Europa aos pés do… Braga.
Enfim, uma temporada que se revelou um tremendo pesadelo. Dificilmente poderia ter sido pior. Porém, JJ tinha os “créditos”, por assim dizer, adquiridos no ano anterior que lhe conferiam a legitimidade necessária à continuidade. A partir daí, a margem de erro seria (ou deveria ser) zero.
2011/12 – O objectivo principal foi novamente falhado. O Benfica tinha cinco pontos de avanço e seguia embalado para o título.
O princípio do fim deu-se à 19ª jornada, ironicamente, na “Cidade Berço”. De Guimarães, o Benfica saiu com uma derrota por 1-0.
Seguia, ainda assim, líder. Até ver.
Na semana seguinte, um empate em Coimbra pôs o universo Benfiquista com o “credo” nas mãos. Um jogo que fica marcado pôr uma arbitragem bem caseirinha, diga-se. No entanto, a 21ª jornada marcava a receção do Benfica ao Porto. Uma oportunidade para arrancar de novo. Mas quem se dirigiu à Catedral, teve como que um “dejávu”. O Porto vencia no Estádio da Luz de forma “sujinha, sujinha”, com um golo em fora-de-jogo claro de Maicon após Emerson (olha quem!) ter sido expulso a dez minutos do fim. Faltavam nove jornadas e nada estava decidido, no entanto, os índices de confiança de Benfica e Porto eram completamente diferentes. Um empate em Olhão e uma derrota em Alvalade foram o q.b para terminar o sonho. Em Vila do Conde, na semana seguinte, à 28ª jornada, o Benfica não passaria de um empate a dois. O Porto nem precisou de entrar em campo. O título estava entregue. “Campeões no sofá”, disseram. Aliás, bicampeões. Dois anos de falhanço a nível de campeonato. Quanto à Taça de Portugal, ainda em Dezembro, uma deslocação à Madeira ditou o nosso afastamento. Só a nível europeu se pode considerar uma temporada digna. Quartos-de-final da Liga dos Campeões, eliminação unanimemente considerada injusta aos pés do Chelsea, que viria a sagrar-se campeão europeu.
2012/13 – Até Maio, o Benfica vivia uma época de sonho. Apesar do afastamento precoce da Liga dos Campeões, a chegada à final da Liga Europa em Amesterdão anulava esse “amargo de boca”. Nada parecia travar o ímpeto Benfiquista, nem mesmo uma fase final na qual seria preciso grande disponibilidade física. A vantagem em relação ao segundo classificado Porto, era de quatro pontos, mas em dois jogos, tudo se perdeu. Um infantil empate com o Estoril na Luz fruto de muito desgaste físico, uma lesão de Enzo Pérez no início do jogo (e consequente escolha de Carlos Martins que viria a ser expulso) abriu a porta para a perda de mais um título. Na jornada seguinte, a deslocação ao Dragão terminaria na subida do Porto ao primeiro lugar, de onde não mais sairia. E nesse jogo, Jesus falhou. Acobardou-se ao fazer entrar Roderick Miranda de modo a defender o empate. Mais tarde ou mais cedo, a probabilidade de o Benfica vir a consentir um golo era grande. E assim foi. Ao minuto 91, Kelvin fez o 2-1 e deu o título ao Porto.
Na Taça de Portugal, o 1-0 parecia chegar. Até que nos últimos 15 minutos, de forma inacreditável, o Guimarães deu a volta. Fruto, novamente, da postura mais à base de contenção que o Benfica adotou. Só na final de Amesterdão tem desculpa, diga-se.
Bem, tenho para mim que os grandes treinadores se revelam nos grandes desafios. E Jesus tem falhado redondamente, tem sido um perdedor nas alturas fulcrais. Assim, entendo esta renovação com uma aposta na mediocridade. O Benfica, enquanto clube grande, precisa de um treinador que tenha os horizontes bem mais alargados. Que tenha uma mentalidade vencedora e ambiciosa. Espero muito sinceramente que esteja profundamente enganado, pois o que mais quero é que JJ triunfe e volte a ser campeão pelo Benfica. No entanto, é esta a minha posição atual relativamente à sua renovação. Não consigo pactuar com a renovação de um homem que tem vindo a revelar-se um perdedor.
Junho 5, 2013
Categorias: Futebol . . Autor: AC . Comentários: 1 Comentário